domingo, 21 de junho de 2020

Outrora

Outrora existia um ego
Que se movia de jangada
Flutuava pelo falso leito
Da felicidade justificada.

Outrora existia um menino
Fracassado de má decisão
Fraca conversão do sonho
Caçado na atual tentação.

Era eu o sonho de outrora
Mas outrora já não me sente
Hora de seguir em frente
Outrora visita frequente.


Agora? Vivo fora de horas
Cada hora difere de outra
Outrora era tempo a mais
Outra hora consumada.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

De Letra em Letra

Aniquilas o sentimento
Bebes da tua desilusão
Cais no vale da tristeza
Depressão não geográfica.
Falavas, até cantavas
Grotesca forma de expressão
Hoje, fecho ecler nos lábios.
Indolente esse (ex) vício
Jorrante em teimosia
Latente em neutralidade.
Marcou-te o não vivido
Nunca o nunca valeu tanto
Maré gasta que visita
O areal enegrecido
Praia que já não a aguenta.
Quiseste o inalcançável
Rarefeito na tua ilusão
Sussurraste a tua verdade
Todavia não verosímil.
Utopia que desvaneceu
Viste em ti a decadência
Xadrez foi o teu lema
Zela por mim numa próxima vida.

terça-feira, 24 de março de 2020

Quem Me Dera

Querer, verbo complicado
Refém da ideia fugaz
De que querer é tão fácil
Como olhar para trás.

Mas quem olha para trás,
Acorrenta a sua vontade
Deixa a réstia de esperança
Nas mãos da rufia bondade.

Almejo no olhar à frente,
Desfaço-me do "Quem Me Quis"
Rego a semente do futuro
E puff, eis o final (meio) feliz.

domingo, 15 de março de 2020

Até podia ser um poema feliz

Até podia ser um poema feliz
Mas não quero que o seja.
Quero antes pairar na tristeza
Afogar as palavras no que é cicatriz

No silêncio de outras emoções
Eis que me sossegou a tristeza
Âncora do meu ego, oh
Esse ego que tarda a surgir

Não me falem de felicidade
Maldita criadora de ilusões
Que tanta vez me traiu
E me imergiu em raiva

Prefiro escrever nessa imersão
Aí, gravita a última lágrima
E praguejo com a certeza
De que felicidade é des(ilusão).

quinta-feira, 5 de março de 2020

Grito quando escrevo

Grito quando escrevo
Porque se falo
Importuno a magia
De palavras inocentes

Desajeitado e moribundo,
Dou-lhes a difícil tarefa
De carregar sentimentos
Que os lábios arruinam

Mas de caneta na mão,
Calejo emoções no papel
Enquanto, ansiosamente,
A boca me falha..

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Vivências Poéticas

Vivo um poema quando
Nos meus dias cinzentos
Vejo o mundo a passar
E tudo faço para o mudar

Vejo um poema quando
Flutuo sobre uma ponte
Olhando para a água supérflua
Que reflete o que ainda não sou

Ouço um poema quando
Navego pelas brancas nuvens
Ao som de uma melodia
Que para muitos é barulho

Sinto um poema quando
Confundo os meus passos
Com curtos versos não lidos
Que são agora devassos

Toda a vida é um poema
E todo o poeta um espectador.